domingo, 22 de abril de 2012

Sentimentos redivivos




Outra vez nós ali.
- o tempo e seu favor prestado aos reencontros –
As feições envelhecidas.
Tu numa fragilidade dócil, sem o vigor
De quando eu, criança, amava-te
no herói que eras para mim.
Hoje sou homem feito, esquecido
mesmo do menino que sorria de ti.

E entre nós uma longa mesa.
Tão longa quanto os anos que nos apartaram.
A toalha mal-posta ainda repleta de migalhas
do pão amargo do convívio partilhado.

Nossos olhos vagos, desencontrados,
cruzam-se num lance breve e sem graça.
Profusão de sentimentos incômodos e indistintos
emanam de nossos olhares tão doloridos.
O silêncio penso sobre nós. Nada a dizer.

De repente, a transposição da longa mesa.
Os braços se procuram, ainda indecisos e atrapalhados.
Então, no desejo recíproco,
um longo e forte abraço....................................................
..........................................................................................
Ouço uma palavra dita
com esforço e soluço.
Eu, lábios trêmulos, entredigo uma profunda resposta
de dor e alívio:
- Meu pai!

A toalha desliza da mesa
e envolve-se em si mesma
no chão.



9 comentários:

  1. A Literatura sempore nos permite reflexões as vezes pacíficas, as vezes aguda... as palavras são lâminas... são lanças... são escudos... principalmente, quando fazem parte de jogos conscientes que nos fazem perceber que podemos dominá-las, para fazer delas o que pretendemos. O melhor disto tudo é o clima que se consegue criar... penetrar e viver... sem nunca ter vivido o que está posto no texto. Isto é a Literatura... de alma e graça... escrita pela alma, perpassando a graça dos interiores humanos. Seu poema, com ares de crônica, deixou em mim uma sensação de "intocabilidade"... de anseio... de sede... que somente a boa literatura consegue fazer florescer. Foi tão real, que eu fiquei congelado... eu nunca vivi uma situação parecida como a relatada no texto... mas me inquietei, querendo quebrar algo que o silêncio fazia imperar. Parabéns! Seu texto: "O TEMPO" Já revelava você! Abraços. Nonato Costa.

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  2. Obrigado, Nonato! E pode ter certeza de que você foi um grande mestre, do qual ainda guardo as melhores lembranças e por quem nutro uma infinita gratidão por tudo o que fez por mim e pelos outros alunos. "Literatura de aprendiz" ainda pulsa com a mesma força cá dentro, porque nunca deixei de me aventurar na escrita nem de buscar aprender. Abraço!

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  3. Uma forte carga emotiva, sem cair na pieguice. Seria muito bom que todos conhecêssemos quem está fazendo a literatura de hoje. Sem preconceitos, sem os rígidos padrões já libertos de uma antiga literatura, à qual, contudo, muito devemos. Indicadíssimo!

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  4. Obg, Thais! Sim, devemos muito à literatura canônica, ao passo que devemos continuar olhando para a frente! Para o que será, sem esquecer o que já foi.

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  5. Sem palavras. Tocou fundo. Parabéns!

    Também tenho um blog, se puder dar uma lida, será bem vindo!
    sentimentalidadesdesconexas@blogspot.com

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  6. Lindo poema, que prima pela plurissignificação mais que pela estéril forma por si mesma. Os sentimentos transbordam mas se nos ocultam pelo belo véu de tuas palavras plurais. Felicitações.Paulo.

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  7. Muito obrigado, Paulo, fico feliz de você ter gostado. Sinto-me honrado com suas palavras. Parece-me que você também escreve... Abs!

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  8. Nossa!Sem palavras para descrever a riqueza de sentimentos desse poema. Confesso que esses versos me transportaram a um passado remoto e não pude deixar de sentir uma lágrima embaçar meus sentidos.
    Gostei muito, Leonildo!
    Espero que continue a nos emocionar com os seus versos.

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