domingo, 1 de março de 2015

Angústia de Orfeu



 
Eis o Orfeu que desceu aos infernos,
mas não pode trazer sua Eurídice pela mão.
O amor foi-lhe tirado
como o golpe de um soco
Faltará o ar pelo resto da vida.

Os objetos de Eurídice ainda ocupam
todos os espaços da choupana.
Roupas, brincos, lenços e perfumes.

Tocará a lira mais dolorida
que os campos já ouviram.
Não haverá folha verde que não mingue
à voz embargada do poeta perdido.

Andará agora como bússola sem norte,
cujo ponteiro se perdeu
dentro do próprio eixo.
E vagará, simplesmente.

Porque não há mais caminho,
não há mais direção,
não há mais lugar,
não há mais ele próprio.



 

  


Epitáfio a mim mesmo


(depois de vencida a mulher)


Matou-me a mulher prática
Venceu a todos,
venceu a mim.

Eis que me prostro aqui,
ao lado do jazigo da minha mulher vencida.
Não há mais luar, não há mais música.
Acabou-se o sentimento.

Tomo duas flores ainda frescas
do buquê oferecido à mulher vencida,
para dar uma última graça
a meus olhos vencidos que se vão fechando.

E é quando me cerro para o infinito,
que brota uma gota de orvalho
na rosa amarela,
mas essa gota talvez seja uma lágrima,
lembrança mesmo do que vai ficando,
lembrança mesmo do que vai partindo...


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Último ato





Surgem como um ronco quente
Do deserto em silêncio,
Olhos por detrás das lentes
Dos rifles em preto lenço.

Aparecem na montanha
Outros olhos sanguinários.
Com as mentes em louca chama,
Vão descendo em grupos vários.

Choque forte, fundo, brusco.
Ronca em dores o deserto.
E a montanha, sob chumbo,
Sangra e chora neste inferno.

Não há mais homens no mundo,
Foi a grande estupidez.
Guerra! Nos levou ao fundo
Por terceira e última vez.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Para o epitáfio da mulher vencida


 

A mulher prática venceu!
Em preto e branco,
guiada pelo relógio de pulso,
de salto,
de bolsa de couro pendendo do antebraço,
apressada logo de manhã para ir trabalhar.

É essa mulher que avisava,
há algum tempo,
que estava a caminho,
que viria para vencer,
e venceu a mulher que eu tinha.

Foi essa mulher prática que entrou
daquela vez fatídica,
batendo a porta da frente,
louca por um banho
para esticar as pernas
e reclamar do dia cinza.

Foi ela que quebrou os porta-retratos
da sala.

Que preferiu dormir
a fazer vigília pelas estrelas.

Foi ela que venceu tudo.
Ela sem ritmo, sem sentido, sem brilho
Venceu a mulher de música,
luar e sentimento,
que Vinícius me deu.

Foi essa mulher prática,
foi ela que não me atendeu ao telefone
Naquele dia.
Naquele dia eu queria mandar flores.

Mas a minha mulher,
aquela que foi vencida,
já não estava lá para recebê-las.

O buquê voltou para sempre
e hoje eu o ofereço ao pé deste epitáfio...


quinta-feira, 5 de junho de 2014

Chamego de bailado

 
 
Ei, menina do bailado,
Cola em mim nesse xaxado
Engoda a perna, troca o passo
Eita, menina, que eu te levo no braço
Eita, menina, me leva no teu cheiro
Dá, dá, dá
Dá ligeiro bem de manso
Um beijo no meu peito
Não te esqueces que te quero
A noite toda, o dia inteiro
Cola em mim pro suor escorrer
Cola, que é pro tempo não perder
Fica assim, bem desse jeito,
A noite toda, o dia inteiro.

sábado, 31 de maio de 2014

A presa


Morena, morena louca
de dente nervoso,
de coxas e de força,
mostra-me teu olho
de tigre moça,
fere-me o dorso
e esmaga-me a boca
na efusão do gozo.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Noturno


 
 
O sorriso que tua boca cheia de dentes abre
Esconde a carne podre de que é feito o teu ser.
E os dentes não são dentes. Chegai mais perto:
São presas afiadas como gumes.
Gestos, carícias, abraços e palavras
Emanam de ti com o mesmo horror fétido de tua alma.
Aliás, palavras são o que te falta,
Ou, mesmo tendo-as, não as quer ofertar
Pois preferes o silêncio
                                   sonso
                                           sem-sal
O silêncio que não te traga
à luz das verdades,
deixando-te, ser, recôndito na sombra
do canto escuro dum quarto
E é lá que queres estar!
Bem ao canto
Com tuas máscaras
Teus flagelos
 
E o crepúsculo permanente de si mesmo.